“Entre ecos e corpos” é uma exposição de interseção entre vídeo, cinema e tecnologia como formas de experimentação no campo das artes visuais. Com sete artistas de Santa Catarina e Paraná que trazem a imagem em movimento como meio de expressão não heteronormativa, a exposição propõe um olhar descentralizado sobre narrativas LGBTQIAPN+. Entre a infância, fé, identidade e repressão, os três trabalhos que compõem o projeto falam sobre a construção das normas e formas de habitar o mundo, apostando no espaço artístico como lugar íntimo, de confronto, de festa e pertencimento.
A exposição circulará em abril e maio nas cidades de Criciúma e Joinville no espaço online, aqui, durante 1 ano.
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EXPOSIÇÃO DE VÍDEOS
CURADORIA DE GABI BRESOLA
CLASSIFICAÇÃO 16 ANOS
Vem de Berço
Em “Vem de berço”, memórias de infância em cidades interioranas se misturam a visões de um possível ultra futuro. A partir de quatro personagens de diferentes gerações, a obra constrói um fluxo contínuo de ações que se acumulam no espaço, criando uma espécie de coreografia do cotidiano baseada no filme Tango (1981), de Zbigniew Rybczynski.
Com: Beatriz alves, Flávia Pacchely, Wlademir Vieira e Oliver Pasetti
Realização: Rachadura visual
Concepção: Rudolfo Auffinger
Assessoria: Keythe Tavares
Produção executiva: Gabi Bresola
Assistência de produção: Abigail Ferrandin
Comunicação e acessibilidade: Abigail Ferrandin
Projeto gráfico: Gabi Bresola
Cenografia: Wlademir Vieira e Gabi Bresola
Figurino: Beatriz Alves, Flávia Pachelly, Wlademir Vieira e Oliver Pasetti
Pintura da camiseta: Nanci Carolina Bresola
Pinturas dos quadros do cenário: Elisabeth Auffinger e Emely Auffinger
Montagem: Rudolfo Auffinger
Finalização: Igor Nazário
Trilha Sonora: Guilherme Gregianin
Agradecimentos:
Arte Flores, Casa da Cultura Rogério Sganzerla, Casa do Produtor, Ermelinda Gonçalves, Móveis Willy, Nanci Carolina Bresola, Pedro Peretti e Rudolfo Ruy Auffinger
do peito da pele
Sinopse: A partir do poema “o que faremos com ele”, o autor, Francisco Mallmann, narra de forma quase litúrgica, as várias alternativas que temos para fazer com deus, caso ele volte. Keythe e Rudolfo, que tiveram suas infâncias em ambientes evangélicos, colocam corpas sob o olhar de uma cruz cristã, que desde o Brasil colonial cerca nossas realidades. A obra emula num altar o olhar moral, punitivo, cristofacista e suas resignificação pelas bichas brasileiras através da arte pop LGBTQIAPN+ brasileira.
Direção, produção e montagem: Rudolfo Auffinger
Direção e montagem: Keythe Tavares
Autoria do poema e narração: Francisco Mallmann
Ano de Lançamento: 2020
Gênero: Experimental
Classificação: +18 anos
Prêmios: 2025 - 2° lugar no Voto Júri Técnico da VI Mostra Cine Diversidade - Rio De Janeiro, Rio de Janeiro/Brasil; 2023 - Menção honrosa de melhor montagem no Olhar Film Festival - Santarém, Pará/Brasil; 2020 - Melhor experimental (Competência Regional Latinoamericana) no FICA (Festival Internacional de Cine Austral) - Córdoba/Argentina e 2020 - Menção honrosa por conceito-ideia e direção de arte no VertiFilms Festival - Praga/República Checa
O Porão
Sinopse: Quais os limites entre abuso, prazer e desejo? Com quem falar sobre nossas experiências quando ainda não somos adultos? Um vizinho, uma carta e um arquivo verde com o sobrenome da família. Como narrar uma história cheia de tabus? Quais memórias estariam guardadas no arquivo verde da família?
Roteiro: Rudolfo Auffinger
Direção: Rudolfo Auffinger
Produção executiva: Gabi Bresola
Direção de fotografia: Igor Nazario
Som direto: Melito
Montagem: Keythe Tavares e Rudolfo Auffinger
Cor: Igor Nazário
Acessibilidade: Raça Livre Produções
Consultoria: João Tomaz Santos
Projeto gráfico: Igor Nazário e Mága
Legendas: Karol Fernandez (ES), Keythe Tavares e Rudolfo Auffinger (PT-BR) e Victório Modesto (EN)
Elenco: Rudolfo Auffinger
Agradecimentos: Móveis Willy e VMS Produções
Gênero: Documentário
Classificação: +14 anos
Ano de Lançamento: 2025
Quando foi que você descobriu que era assim?
Que poderia ser assim? Como foi? Quando será que foi que as outras pessoas descobriram que eram a regra? Quando foi que pensamos que dissidência não era uma decisão? Quantas vezes a gente teve que escolher fugir? Quantas vezes a gente segurou o desejo? E a raiva?
Jota Mombaça fala “A memória é um campo de guerra: lembrar é sempre um gesto político. Arquivo não é aquilo que guarda, mas aquilo que decide o que pode ou não sobreviver”. A normatividade é uma inscrição degradante que atravessa nossos corpos desde o momento em que estamos dentro dos corpos de nossas mães, atravessa o corpo com útero, incessantemente tratado como público. Começa na regra número zero: azul-rosa, menino-menina até alcançar as mais variadas formas de violência com o passar dos anos. A Castiel Vitorino escreveu que “Somos o arquivo vivo das violências que atravessaram nossos corpos — e também das estratégias que inventamos para sobreviver a elas. A infância é o primeiro laboratório político onde o gênero é testado, corrigido e punido”.
Mas será que é possível desfazer esses processos políticos de naturalização da violência? E se a normatividade deixasse de existir nos nossos primeiros anos de existência? Se conseguíssemos nos livrar desse bicho medonho que nos assombra desde tão cedo? O que é que a gente seria? O que é que a gente poderia ser?
Todas as pessoas que hoje entendem que fazem parte da sigla LGBTQIAPN+ talvez tenham perpassado questões sobre isso nas inúmeras vezes em que pensaram sobre sua identidade, e tem aquelas que nunca conseguirão se declarar parte da sigla por isso mesmo, também. No meio interiorano, fora das grandes metrópoles e meios letrados, tem aquelas que sequer sabem sobre essa sigla, mas se soubessem o que significa talvez pudessem dizer que fazem parte dela. Independente de siglas, as pessoas são, existem e amam — e nomeamos em letras porque precisamos nomear, mas também morremos de medo de criarmos novas normas de existência. Elas são, existem e amam mesmo com um volume imenso de atribuições alheias que no passardo tempo vão se agarrando e marcando em cada pedacinho do corpo.
Por quem aquela tia solteirona sentia desejo? O que fazia aquele primo afeminado que virou padre delirar de emoção? O que fazia com que aquela mulher gostasse mais de ficar com a vizinha da roça do lado do que com a família? O que fazia aquele senhor que só quando branqueou os cabelos teve coragem de assumir que amava batom, que adorava outra roupa que não aquela que aparecia em público todos os dias? Quantas pessoas que deixaram de ser, amar e existir por conta desse arquivo/carga no corpo, né?
Estamos falando do meio interiorano porque é de lá que viemos e ainda mantemos nossa vida com as construções de subjetividades. Mas sabemos que as questões das “bichas do mato”, citando aqui Audrian Cassanelli, tem os mesmos problemas que as de cidade grande, o que muda é a dimensão e o impacto, e claro, cada pessoa com as especificidades das suas dores e alegrias. Quanto menor o espaço mais visível ficam as coisas, e, na ausência de redes e pessoas com similaridades, são produzidas novas camadas de ameaças simbólicas. Por isso, escolhemos criar baluartes para nossas fortalezas e simbologias, outros universos para transformar nossos sentidos procurando pessoas com similaridades, e aqui, isso acontece a partir das imagens em movimento.
Interseccionando vídeo, cinema e tecnologia como formas de experimentação no campo das artes visuais, as três obras desta exposição atuam como dispositivos de fabulação que atravessam infância, religiosidade e processos subjetivos, ativando experiências que oscilam entre o pessoal e o coletivo.
No trabalho Vem de Berço, a repetição de ações constrói uma temporalidade expandida, na qual passado, presente e ultra futuro coexistem numa coreografia da memória. As quatro pessoas criam seus movimentos combinando uma lembrança e um vontade-sonho. O Porão, investiga o arquivo íntimo e familiar como espaço de silenciamento e aborda memórias infantis atravessadas por tabus e descobertas, evocando reflexões sobre sexualidade, escuta e formação e os limites delicados entre experimentação e abuso. E, fechando a trinca do peito da pele dialoga com críticas contemporâneas à aliança entre religião e política no Brasil, expondo o que Paul B. Preciado identifica como regimes de produção de corpos normativos e dissidentes. Nele, o poeta Francisco Mallmann, recita de forma litúrgica enquanto a cruz monumental, símbolo central da colonialidade brasileira, é ressignificada a partir de uma estética que combina liturgia, cultura pop e performatividade bicha.
São esses três trabalhos que juntos chamam pra gente se esses manifestos pessoais, talvez como retrovisão para pensar no que compõe nossos corpos ou em uma analogia/mão dupla: olhando para o que é refletido, nos espelhando e sendo reflexo para outros corpos-campos-de-batalha. Pois sabemos que a norma e aqueles que a inventaram tem organizado o mundo para nos matar lentamente, e, diante disso, nossa tarefa diária é inventar modos de permanecer. Desfazendo arquivos e inscrições, criando e abrindo espaços para o que queremos de nós.
Infância, fé, identidade, reconhecimento e desejo são palavras que permeiam a exposição, representações sobre nossos direitos de habitar e ser nesse mesmo mundo, no mato ou no asfalto, apostando no espaço artístico como lugar íntimo, de confronto, de pertencimento e principalmente de festa. Como Nego Bispo sugeria “organizando a raiva e defendendo a alegria”.
GABI BRESOLA
curadora
CRICIÚMA
Abertura: 15/04, quarta-feira, 19h30 com conversa
Visitação: até 07/05 de segunda a sexta-feira das 13h-19h
Local: Sala Edi Balod
[Av. Universitária, nº 1105, Bairro Universitário, Criciúma/SC]
JOINVILLE
Abertura: 24/04, sexta-feira, 19h30 com coquetel e conversa
Visitação: até 24/05, de segunda a sexta-feira, das 13h30 às 17h e das 18h30 às 22h
Local: Galeria do CAD - Curso de Artes Visuais e Design da Univille
[Rua Paulo Malschitzki, nº 10, Zona Industrial Norte, Joinville/SC]
ONLI NE
Abertura: 28/04, terça-feira, 19h30
ombuproducao.com/ecos
Gratuito
Classificação: 16 anos
FICHA TÉCNICA
Artistas: Beatriz Alves, Flavia Pacchely, Keythe Tavares,
Oliver Ribeiro Pasetti, Rudolfo Auffinger e Wlad Vieira
Curadoria: Gabi Bresola
Texto: Gabi Bresola
Produção: Ombu Produção
Produção local Criciúma: Iolanda Peres
Produção local Joinville: Nicole Ferreira
Montagem da exposição: Gabi Bresola, Iolanda Peres e Nicole Ferreira
Produção Executiva: Keythe Tavares e Ombu Produção
Expografia: Júlio Gubert
Coordenador: Rudolfo Auffinger
Assessoria de Comunicação: Keythe Tavares e Ombu produção
Designer: Ombu Produção
Parcerias: Coletivo Rachadura Visual
Agradecimentos: Abigail Ferrandin, Daniele Zacarão (sempre), Elisabeth Auffinger, Jair (Tubarão), Ítalo ÂNgelo, Leonardo Mantoani e Vitoriano Soratto Corrêa
Espaços expositivos: Sala Edi Balod - Artes Visuais da Unesc - Criciúma (SC) e Galeria do CAD - Curso de Artes Visuais e Design da Univille - Joinville (SC)
Projeto “Entre ecos e corpos” realizado com recursos do Governo do Estado de Santa Catarina, pela Fundação Catarinense de Cultura [FCC], por meio do Prêmio Elisabete Anderle de Estímulo à Cultura – Edição 2024
Projeto “Entre ecos e corpos” de Rudolfo Auffinger realizado com recursos do Governo do Estado de Santa Catarina, pela Fundação Catarinense de Cultura [FCC], por meio do Prêmio Elisabete Anderle de Estímulo à Cultura – Edição 2024
LIVE DE ABERTURA
com Beatriz Alves, Gabi Bresola e Oliver Paseti
